quinta-feira, 4 de julho de 2019

4  de Julho

Sobre cicatrizes


Procuro minhas cicatrizes
Só pra mostrar a você.
Elas já não são mais as mesmas...
Acende mais uma vez essa luz!

Procuro meu traço
 E na memória do traço,o cutelo;
 Por sob o cutelo,o corte;
Depois do corte,  o visgo de meus olhos tortos.

Te ofereço minha história de pequenas tristezas:
Quando morreu meu cão,
O riso cruel dos meninos,
Quando meu pai se foi,
A consciência da  onipresença da morte,
Quando os tratores derrubaram a casa de minha avó.
Quando caí e cortei o queixo na calçada da escola.

Cada pequena lembrança, evocada pelo contato com sua barba cerrada,
constitui um relicário escondido debaixo de um sorriso.
Testemunho precário de minha urdidura refletida no seu rosto.

Acende outra vez essa luz
"Meu trabalho é te traduzir" nas metáforas daquilo que em mim te pertence.
A cicatriz é o que importa,
Não pela dor, mas porque revela que em toda tristeza há a possibilidade do poema tatuado  pelo tempo.

Quero provar com isso que não há poemas tristes.
Triste é a impossibilidade de haver poemas.




Nenhum comentário:

Postar um comentário