segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Em segunda pessoa

Que pedra é essa que  atiro à janela,

Pra  te acordar na madrugada?

Sei bem,

Não é simples adormecer.

Tampouco é simples despertar.

Sei também do meu assombro

 E dessa longa vigília  

sob essa janela de um sobrado onde já não vives mais.


Sei que esse quartzo rosado,

Se atirado sem cuidados de artista,

Pode quebrar tuas vidraças, 

Pode ferir teu rosto,

Que dorme.


Entre minhas mãos,

Escondo  essa rosácea de oxigênio e silício

Como se pássaro vivo fosse.

A pedra que pulsa.

Eros  granito,

Cor evanescente e memória carcomendo a palma.

Ela vem de antes das gentes

Antes de réptil, de pássaro, peixe.

De antes das espécies, antes mesmo da vida.

Antes do antes do tempo.


Se decido atira- la mais uma vez,

Impossível calcular a parábola 

Desse projétil.

Acerta acarinhando? Fere quando canta? É estilhaço esse meu acalanto ?

Quereria somente assoprar um segredo 

Ao teu ouvido 

Sem alarido, 

sem assombro, sem tremor.


Há algo de eterno nas pedras 

E  esse cristal, 

Como se pássaro vivo fosse,

Ameaça teu sono.

Ouves já seu repique na vidraça da manhã?




































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